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Textos & Transcrições

Secretária Clinton em reunião pública em Túnis com jovens tunisinos

27 de fevereiro de 2012

DEPARTAMENTO DE ESTADO DOS EUA
Escritório do Porta-Voz
25 de fevereiro de 2012

PRONUNCIAMENTO

Secretária de Estado Hillary Rodham Clinton
Em reunião pública em Túnis com jovens tunisinos

25 de fevereiro de 2012

Palácio do Barão d'Erlanger

Túnis, Tunísia

MODERADOR: Temos muito orgulho dos jovens do nosso país por serem os catalisadores e líderes da mudança. Senhora Secretária de Estado, sentimo-nos honrados em recebê-la aqui no nosso país pela segunda vez em menos de um ano. E em nome dos participantes de hoje, eu gostaria de lhe dar as boas-vindas e agradecer-lhe pela sua presença aqui connosco e pela excelente oportunidade de os nossos jovens trocarem impressões consigo. Tem a palavra.

SECRETÁRIA CLINTON: Muito obrigada. Bem, muito obrigada, e é um prazer estar de novo aqui numa Tunísia livre e estar neste belo centro de música árabe e mediterrânica, e quero agradecer ao diretor e a todos os associados ao centro. Mas o que é mais estimulante para mim é ter esta oportunidade de dialogar com todos vocês, e agradeço-vos por terem vindo, e Leila, obrigada por concordar em ser a moderadora.

Este é um momento emocionante, mas também desafiante aqui na Tunísia. A polícia de choque já se foi e o gás pimenta já não está mais no ar, mas é verdade que construir uma democracia sustentável e uma economia moderna, garantindo os direitos universais a todos os tunisinos, a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, a liberdade de religião, a liberdade de associação, tudo isso leva tempo para se estabelecer solidamente. Construir uma economia moderna que seja aberta ao mundo, que aproveite a localização estratégica da Tunísia também leva tempo. Mas o que me impressiona não é o quão inspiradora tem sido a revolução da Tunísia, mas o quão determinado está o povo da Tunísia sobre o futuro que está a almejar.

Bem, o futuro é sempre um tanto incerto, mas o que é certo para mim é que serão os jovens da Tunísia que determinarão como será o seu futuro. E muitos se perguntam: porque é que depois de tantos anos a mudança finalmente chegou à Tunísia e esta mudança aqui na Tunísia despoletou a mudança em todo o mundo árabe? E porque é que os jovens aqui na Tunísia foram os primeiros a se manifestar pela liberdade e por oportunidades?

Bem, a primeira resposta, e geral, é de que os direitos e a dignidade dos seres humanos não podem ser negados para sempre, não importa o quão opressivo possa ser um regime. O espírito dos direitos humanos e da dignidade humana vive dentro de cada um de nós e as aspirações universais têm um poder profundo e duradouro. A segunda razão é que vocês pertencem a uma geração notável de jovens, não só aqui na Tunísia, mas em todo o mundo. São jovens otimistas, inovadores, impacientes que eu vejo em todos os lugares por onde viajo. Porque além da sua própria coragem e determinação, há dinâmicas subjacentes que estão a afetar os jovens em toda a parte – mudanças demográficas e tecnológicas, económicas e políticas que se unem neste momento singular na história.

Os jovens estão no coração das grandes oportunidades e desafios estratégicos de hoje, desde a reconstrução da economia global à luta contra o extremismo violento e à construção de democracias sustentáveis. E eu tenho lutado, como alguns de vocês devem saber – algumas das mulheres que cumprimentei ainda agora e que estão a conduzir mudanças aqui na Tunísia – eu tenho lutado há anos para colocar a autoafirmação das mulheres na agenda internacional. Creio que é hora de incluir a autoafirmação dos jovens também.

Agora percebo que vocês, por serem jovens, podem ser céticos. Foi há muito tempo, mas ainda me lembro de quando eu mesma era jovem. Mas as necessidades e preocupações dos jovens têm sido marginalizadas há demasiado tempo por líderes políticos e económicos. E o fato é que hoje, o mundo corre risco ao ignorar os jovens, porque vejam só os dados demográficos. Da América Latina ao Médio Oriente, à África Subsariana e até ao Sudeste Asiático, estamos a ver aquilo a que os especialistas chamam de explosão [demográfica]. Atualmente há mais de 3 biliões de pessoas com menos de 30 anos no mundo. Noventa por cento delas vivem no mundo em desenvolvimento. E os números continuam a crescer.

E vocês estão a viver em um mundo que os vossos pais, e certamente os vossos avós, nunca poderiam ter imaginado – televisão por satélite, Internet, Facebook. A minha falecida mãe costumava dizer: “O que é isso de faces (rostos) na Internet?” (Risos). E as novas tecnologias da comunicação encolhem o mundo, mas expandem os horizontes. Agora todos podem ver como os outros estão a viver – a viver com prosperidade, dignidade e liberdade, e eles querem justamente essas coisas para si mesmos. E podemos também ver, como vimos horrorizados durante as últimas semanas, o que está a acontecer na Síria. E eu realmente felicito o governo da Tunísia por organizar a conferência realizada ontem.

Então à medida que as expectativas aumentam, o que está a ser feito para atendê-las? Estamos a fazer progressos em termos políticos, mas ainda há muito a ser feito no plano económico. Os jovens têm três vezes mais probabilidade de ficarem desempregados do que os mais velhos. E mais de 100 milhões de jovens mal conseguem se manter com empregos a tempo parcial e salários insuficientes. E aqui mesmo na Tunísia, sei que há muitos jovens que ainda não estão totalmente empregados, produtivamente empregados.

Assim, a economia global está a conectar-nos mais do que nunca, mas os jovens estão a perceber que, mesmo com diplomas de pós-graduação, podem não ter as competências que o mercado global procura. Portanto, há essa lacuna. Então milhões de jovens deixam as suas famílias e aldeias e mudam-se para cidades populosas e ainda não encontram aquilo que buscam. As antigas redes de patrocínio que forneciam empregos para as gerações anteriores eram reforçadas por sistemas corruptos que agora estão ultrapassados e não funcionariam no mundo moderno de hoje. Os jovens em muitos países estão a combinar tecnologias e ética para revigorar os serviços públicos de base e estamos a ver os resultados ao combaterem governos corruptos. Muitos dos laços que existiam na família e na comunidade não são tão fortes como antes e muitos jovens encontram-se sozinhos. E isto tudo é uma receita para frustração e instabilidade que pode ser explorada por extremistas e criminosos de todo o mundo.

Então o que fazemos? Como ligamos a energia e inovação dos jovens às mudanças que são tão necessárias? De fato, em janeiro último, enquanto protestos enchiam as ruas desta cidade, eu desloquei-me a Doha e alertei numa conferência regional de líderes árabes que se eles não agissem com rapidez suficiente para oferecer aos jovens uma melhor visão para o futuro, os seus regimes se afundariam na areia. E os jovens da Tunísia demonstraram isso.

E assim a reforma política continua. E muitas vezes no passado, por muito mais tempo. Na Polónia, um sindicato levou uma década para conseguir desalojar um governo comunista repressivo. Na Tunísia, vocês conseguiram desalojar um ditador em um mês. A história mundial que está a acontecer aqui e noutros lugares requer pensamento inovador e empreendedorismo económico para assegurar que a revolução democrática produza resultados para os indivíduos. Isso está a acontecer em muitos lugares, mas não o suficiente ou não suficientemente rápido.

Bem, eu já argumentei que em cada região do mundo, as necessidades e aspirações dos jovens devem ser mais plenamente reconhecidas. Como disse uma autoridade na Índia recentemente, a explosão juvenil será um dividendo se capacitarmos os nossos jovens, mas será um desastre se não conseguirmos colocar em prática uma política e condições em que possam ser capacitados.

Então aqui está o que os Estados Unidos estão a tentar a fazer. Estamos a formar conselhos de jovens nas nossas embaixadas e consulados para terem contacto direto com jovens como vocês, porque para cada problema, queremos procurar uma solução. Também criamos o Escritório para Questões Globais dos Jovens em Washington para assegurar meios de fazer parceria convosco. E temos um ativista de 24 anos, Ronan Farrow, que está aqui hoje [e] é nosso consultor sobre questões globais dos jovens.

Parafraseando Steve Jobs, não precisamos apenas de pensar de forma diferente; temos que pensar grande, porque caso contrário, perderemos este momento na história. Ora, o que querem os jovens? Creio que querem a mesma coisa que todos queremos – paz, prosperidade e dignidade, uma oportunidade de participar, uma oportunidade para que as suas vozes sejam ouvidas e os seus votos contados.

E há abordagens comprovadas e verdadeiras que funcionam. Na economia, precisamos de incentivar o empreendedorismo. E aqui temos representantes da Associação Nacional de Organizações Profissionais do Empregador (NAPEO). Onde estão os nossos representantes da NAPEO? Temos tunisinos bem sucedidos nos negócios que estão a fazer parceria connosco e com outros para gerar mais oportunidades económicas. O seu enfoque é primeiramente criar postos de trabalho para os jovens. E criámos o Programa de Empreendedorismo Global que põe os investidores em contacto com jovens que têm boas ideias e estão dispostos a trabalhar arduamente para vê-las realizadas.

Por exemplo, no outono passado enviámos uma delegação de investidores e empresários americanos a Tunísia, Marrocos e Argélia para se reunirem com jovens empresários e aconselhá-los. Uma das pessoas com quem se encontraram era um argelino de 25 anos, pioneiro na utilização de novos mecanismos de comércio eletrónico para as comunidades com acesso limitado a serviços financeiros. Vinha de uma aldeia pobre na Argélia e sabia que as pessoas da sua aldeia não tinham acesso ao crédito, não tinham acesso aos mercados, mas tinham telemóveis. Então, utilizando os telemóveis ele forneceu aplicações que deram a essas pessoas acesso ao crédito, a serviços bancários móveis, a informações sobre como iniciar um negócio e como elaborar um plano de negócios. Um talentoso cientista tunisino bem como outros empresários tunisinos receberam bolsas de estudos para estudarem gestão e poderem desenvolver mais as suas ideias na América.

Vamos criar uma dinâmica organizando uma Aliança Global de Empregos para Jovens de modo a arranjarmos mais parceiros e abrangermos mais pessoas. E uma área que vamos destacar é o aumento do ensino do inglês em todo o mundo e em especial aqui na Tunísia porque o inglês tornou-se a língua do comércio e, em grande medida, a língua da internet, embora [a internet] esteja obviamente disponível noutras línguas. Mas serve de porta de entrada na economia global. O Corpo da Paz vai regressar à Tunísia e irá dar ênfase ao ensino do inglês. Estamos a usar a internet para ensinar inglês. Já estamos a ajudar milhares de jovens tunisinos a arranjar emprego e a dar formação. E queremos expandir os programas de intercâmbio educativo das universidades entre os Estados Unidos e a Tunísia. Nesta primavera, uma equipa de especialistas em educação da América irá deslocar-se ao Magreb para criar novos laços com escolas regionais de gestão de empresas e centros de formação.

Em última análise, nós sabemos o que o governo tem que fazer. Tem que castigar a corrupção sempre que ocorrer, castigar o compadrio sempre que houver e diversificar a sua economia e abrir o seu mercado. Às vezes ouço os líderes desta região dizer que sentem algum receio em liberalizar as suas economias, mas penso que isso é prestar um mau serviço às pessoas destes países que têm tanta energia e, em especial, aos jovens. A liberalização da economia beneficiará principalmente os jovens da Tunísia e de outros lugares.

Queremos também incentivar o uso de instrumentos das redes sociais. As redes sociais que foram utilizadas para derrubar o regime de Ben Ali podem ser utilizadas agora para expor a corrupção, incentivar a transparência e o bom governo. Também é verdade que isto é acompanhado do tipo de liberdade que está agora disponível, portanto não é só para ganhar a vida mas também para permitir que as pessoas participem. Porque, no fim de contas, dignidade significa ser tratado com respeito, fazer-se ouvir e ter o direito de participar e até de liderar. A vossa nova democracia precisa de vocês. A participação é um meio para atingir um fim e não um fim em si. E realmente exige que todos contribuam para criar uma nova Tunísia.

Ora, obviamente, as pessoas discordarão. Temos estado a discordar uns dos outros há 236 anos nos Estados Unidos. Todos nós não vemos o mundo da mesma maneira. Mas acreditamos nos valores fundamentais subjacentes à nossa democracia. Uma das questões mais comuns que me perguntam quando viajo pelo mundo é como é que depois de me candidatar como adversária de Barack Obama concordei em trabalhar com ele como Secretária de Estado? E a resposta é simples. Ambos amamos o nosso país. E, sim, a concorrência foi forte? Foi muito forte. Eu queria ganhar; ele também. E portanto, tive que fazer uma escolha porque não se tratava de mim, tratava-se do que podíamos fazer juntos pelos Estados Unidos.

E os veteranos de transições democráticas da América Latina à Europa de Leste e ao Leste da Ásia aprenderam as lições da democracia pluralista. Todos os partidos políticos, religiosos e laicos têm de cumprir regras básicas: rejeitar a violência, apoiar o estado de direito, respeitar a liberdade de expressão, religião, associação e reunião, proteger os direitos das mulheres e das minorias, renunciar ao poder se for derrotado nas urnas e, em especial numa região com uma profunda divisão religiosa, evitar acender conflitos sectários que dividem as sociedades.

Pois bem, aqui na Tunísia, um partido islâmico obteve a maioria dos votos em eleições abertas, competitivas que aplaudimos. E os líderes do partido prometeram adotar a liberdade religiosa e conceder plenos direitos às mulheres. E nas minhas reuniões de hoje com o presidente e o primeiro ministro esse compromisso foi reforçado.

Também a tarefa de redigir uma constituição e de governar exige a cooperação de toda a sociedade. Nenhuma pessoa, nenhum partido tem todas as respostas. Cada país é mais forte por escutar com respeito aqueles de quem divergimos. Assim para elaborar uma constituição, o partido agora no poder terá que trabalhar com outros partidos, incluindo partidos laicos, e persuadir os eleitores de todo o espectro político a respeitarem princípios fundamentais. E os tunisinos terão que garantir que todos cumpram essa promessa.

Ora, eu sei que há aqueles que na Tunísia, e não só, questionam se a política islâmica pode ser realmente compatível com a democracia. Bem, a Tunísia tem uma oportunidade de responder afirmativamente a essa questão e de demonstrar que não existe contradição. E isso significa não só falar de tolerância e pluralismo mas também viver isso. E compete-vos a vocês fazer com que todos os partidos políticos respeitem os mesmos valores.

Proteger a democracia é um dever de cada cidadão. E para os jovens da Tunísia é uma responsabilidade especial. Vimos a vossa coragem na vanguarda da revolução, tanto homens como mulheres, aguentando o gás pimenta e os espancamentos. É preciso um tipo diferente de coragem para ser o guardião da vossa nova democracia. Depois de uma revolução, a história mostra que pode haver dois caminhos. Pode avançar na direção para onde vocês vão agora, construir um forte país democrático, ou pode descarrilar e desviar-se para uma nova autocracia, um novo absolutismo. Os vencedores das revoluções podem tornar-se vítimas. Assim, compete a todos os tunisinos, sobretudo aos jovens tunisinos, resistirem ao apelo de demagogos, criarem coligações, acreditarem no vosso sistema mesmo quando o vosso candidato perder as eleições.

Depois de o Presidente Obama me ter vencido, muitos dos meus apoiantes não queriam que eu desistisse e queriam que não colaborasse e dissesse não a qualquer pedido de ajuda. E eu disse absolutamente não. Isto tem a ver com o nosso sistema político. Isto tem a ver com a nossa agenda. Não tem a ver com qualquer de nós. E portanto temos que proteger os princípios e instituições fundamentais da democracia. Sei que na Tunísia vocês têm um ditado: “O esforço contínuo pode furar o mármore”. Bem, esse espírito ajudou os manifestantes e dissidentes a suportarem longos anos de repressão e, finalmente, a derrubarem o antigo regime. Penso que é esse mesmo espírito que pode ajudar-vos a avançar.

Assim, penso que nos encontramos num momento particularmente importante. E queria falar diretamente com as jovens que estão aqui e as que vocês representam em toda a Tunísia, na região e em todo o mundo, porque alguns dos obstáculos que as jovens enfrentam são únicos. Atualmente, em muitos lugares do mundo as leis e os costumes tornam difícil para as mulheres iniciar um negócio, candidatar-se a um cargo público e até tomar decisões pessoais. A Tunísia sobressaiu-se como um local que protegia os direitos das mulheres e enviou uma mensagem de que não havia contradição entre cultura e religião e oportunidade e autoafirmação. E assim para as jovens e os jovens que se encontram aqui, a Tunísia precisará de todos os seus filhos e filhas a fim de ter o sucesso que vocês pretendem.

Recentemente, um dos juízes do nosso Supremo Tribunal, Ruth Bader Ginsburg, visitou o Egito e a Tunísia, encontrou-se com os vossos juízes e altos responsáveis. E ela disse algo que julguei muito apropriado: as filhas do Médio Oriente devem poder aspirar e realizar com base no talento que Deus lhes deu e não serem deixadas para trás por leis dos homens. Por isso fiquem a saber que à medida que fazem esta caminhada incrivelmente histórica e importante rumo a uma democracia que produz resultados, política e economicamente para vocês, os Estados Unidos estão do vosso lado.

Sabemos algo sobre como é difícil construir uma democracia. Temos estado a trabalhar nisso há muito tempo. Somos agora a mais antiga democracia na história mundial, mas tivemos muitos obstáculos ao longo do caminho. Travámos uma guerra civil para libertar os afro-americanos que tinham sido escravos. Tivemos que emendar a nossa constituição para as mulheres poderem votar. Continuamos a tentar aperfeiçoar a nossa democracia. Por isso, não sejam demasiado impacientes, mas não sejam de modo algum complacentes. Têm que ter em mente esses dois aspetos ao mesmo tempo.

Cada um de vocês merece a mesma oportunidade de viver de acordo com o potencial que Deus vos deu. E sinto-me muito confiante, muitíssimo confiante de que a Tunísia terá êxito graças a vocês. Muito obrigada. (Aplausos).

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(Distribuído pelo Bureau de Programas de Informações Internacionais do Departamento de Estado dos EUA. Site: http://iipdigital.usembassy.gov/iipdigital-pt/index.html)