Washington – Dar um meio de subsistência a uma mulher pobre, fazer um filme para expor famílias que entregam as suas filhas para pagar uma dívida ou reconstruir as vidas de mulheres jovens que foram soldados ou prostitutas desde a infância.
Estas são as ações de mulheres que estão a assumir a liderança visando a mudança em comunidades com problemas em todo o mundo. São mulheres que são reconhecidas com Prémios Globais de Liderança da organização Vital Voices (Vozes Vitais), que trabalha em mais de 140 países para ajudar a reforçar a democracia, aumentar a oportunidade económica e proteger os direitos humanos.
A presidente de Vital Voices, Alyse Nelson, disse que as nove mulheres homenageadas em 2012 deram às suas comunidades a liderança certa no momento certo.
“Essa abrangência, essa defesa de causas, essa habilidade de atravessar linhas que geralmente dividem, essas aptidões são exatamente o que o nosso mundo precisa para sarar”, disse Nelson.
Nelson discursou a 5 de junho em Washington no Instituto Americano da Paz, um dia antes das homenageadas aceitarem os seus prémios numa cerimónia no Centro de Artes Performáticas John F. Kennedy.
A homenageada Samar Minallah Khan do Paquistão estudou antropologia mas tornou-se uma realizadora de documentários para expor os costumes rurais que violavam os direitos das mulheres.
“Compreendi que se levarmos estes documentários às comunidades, às zonas rurais, e os usarmos como um mecanismo de sensibilização e diálogo, isso ajudaria realmente a quebrar o silêncio acerca de questões das quais geralmente não falamos pública ou abertamente”, disse Khan à audiência no Instituto da Paz.
Dar as filhas como pagamento de uma dívida ou para resolver diferendos é designado no Afeganistão e no Paquistão como swara e tem sido praticado abertamente há gerações. Graças em parte ao filme de Khan, os legisladores paquistaneses votaram uma lei em 2004 para abolir essa prática.
Khan também realizou documentários sobre tráfico de pessoas, trabalho doméstico infantil e a importância da educação para as meninas.
Na Libéria, 2 mil meninas soldados entregaram as suas armas às forças de manutenção da paz das NU no fim de 14 anos de guerra civil. Rosana Schaack era uma enfermeira que se tornou ativista que ajudou a reabilitar essas jovens soldados, algumas das quais tinham apenas 7 anos quando foram raptadas por um exército rebelde.
“Foram usadas como mulheres; foram escravas sexuais, foram mães precoces”, disse Schaack. Ela criou uma organização sem fins lucrativos Touching Humanity in Need of Kindness (THINK Inc.) para ajudar a tratar dos problemas da Libéria no pós-guerra.
THINK prestou uma série de serviços para ajudar crianças soldados veteranas a integrarem-se na vida normal, incluindo alojamento, cuidados de saúde, aconselhamento, educação e formação para a vida.
A luta para ganhar a vida na pequena ilha do Pacífico, Samoa, era outrora tão difícil que os jovens deixavam os seus lares e iam para outros lugares à procura de emprego. Adimaimalaga Tafuna’i quis acabar com esse ciclo de emigração através de uma forma do pessoal da aldeia gerar rendimentos para poder educar, alimentar e cuidar melhor das suas famílias.
Identificar e cultivar os produtos que só crescem em climas tropicais era a solução e Tafuna’i criou uma organização de promoção de negócios para ajudar os aldeãos a encontrarem mercados maiores para produtos como óleo de coco e sumo de noni. Os habitantes da Samoa estabeleceram aquilo que Tafuna’i designa por “uma relação ótima” com The Body Shop, uma empresa do Reino Unido especializada em produtos para a pele, cosméticos e de limpeza feitos com ingredientes naturais.
“As quantidades de que precisam continuam a aumentar e temos que procurar mais fora de Samoa, que é o que estamos a fazer agora tentando estabelecer relações com outros pequenos países do Pacífico”, disse Tafuna’i aos presentes no Instituto da Paz.
Segundo Tafuna’i, Women in Business Development Inc. teve sucesso na Samoa porque foi criada por naturais da Samoa que compreendem a cultura e estão dispostos a escutar os aldeãos. Ela disse que, com frequência, empresários bem intencionados vão para países pequenos com a ideia de apressar o desenvolvimento utilizando métodos inapropriados que podem ter tido êxito noutro lugar mas não entre as populações pequenas, isoladas dos países insulares do Pacífico.
Vital Voices também homenageia mulheres que desempenharam um papel em vários países envolvidos no movimento da Primavera Árabe de 2011. A advogada ativista dos direitos humanos Salwa Bugaighis tem um longo historial de defesa de presos políticos e foi uma organizadora das manifestações em Benghazi que foram o impulso que, em última análise, acabou com o regime de Muammar Kadafi.
Ela lembra-se de estar no meio duma multidão numa das primeiras manifestações e de ouvir dizer que um homem tinha sido morto pelas tropas de Kadafi perto do local em que se encontrava. “Nessa altura, transformou-se de protesto em revolução”, disse Bugaighis. “Não sentíamos medo. Queríamos terminar a nossa missão”.
Bugaighis foi membro do Conselho Nacional de Transição da Líbia, mas demitiu-se do cargo após vários meses em protesto pelo que considerava como falta de mulheres no novo governo.
Vital Voices reconheceu também a liderança de várias outras mulheres:
Ruth Zavaleta Salgado, uma política mexicana; Shatha Al-Harazi, uma jornalista iemenita; Manal al-Sharif, uma ativista dos direitos humanos da Arábia Saudita; Marianne Nagui Hanna Ibrahim, uma ativista egípcia dos direitos humanos e da paz social e Amira Yahyaoui, uma blogueira e defensora de maior liberdade de expressão na sua terra natal, a Tunísia.
